A grande preocupação do monarca era ainda maior quando olhava
seu filho e herdeiro. Único sobrevivente de sua prole e
esposa, que haviam sucumbido a uma grande praga que quase
devastou todo seu povo e também a família real, sofrida há
poucos anos. A família real se resumia agora ao monarca, uma
irmã mais nova e totalmente dependente de seus cuidados e
àquele único filho.
Rapazote orgulhoso e voluntarioso, o jovem príncipe estava
sempre envolvido em discussões e gritarias, quando se sentia
contrariado em suas vontades. Esse até poderia ser o perfil de
um bom comandante e guerreiro para liderar exércitos naquelas
paragens, não fosse o fato de ser extremamente inábil com a
espada e na luta corpo a corpo. Seu filho era um brigão que na
verdade, não sabia lutar.
O monarca já havia tentado transformá-lo em um sucessor digno
de todas as formas. Chamou vários guerreiros para ensiná-lo e
degolou outros tantos por falharem.
O rei sabia que se em um curto espaço de tempo o rapaz não
melhorasse, acabariam perdendo tudo o que haviam conquistado,
pois rumores já corriam a respeito da impossibilidade do
monarca ser substituído por um filho tão sem predicados e
carisma.
Os soldados já davam mostras de não se sentirem mais tão
motivados a lutar por um reinado que não poderia ser
sustentado em futuro próximo, quando o jovem assumisse o
trono.
Noticias a respeito da intenção de invasão de suas terras em
um golpe arquitetado pelo monarca vizinho, se faziam ouvir
pelos cantos e a tensão aumentava dia a dia.
Na tentativa de proteger o que restou de sua família e ao
menos uma parte de seu patrimônio e de seu povo, o monarca
arranjou o casamento de sua dependente irmã, com um importante
nobre aliado, dando como dote grande parte de seu reino, na
esperança de que ela tivesse uma prole forte o bastante para
retomar mais tarde seu próprio reino, caso ele viesse a
sucumbir num futuro que parecia cada vez mais próximo e certo.
Porém, um ano após o casamento, a noticia do nascimento de uma
menina acabou com suas esperanças imediatas.
O rapaz tentou procurar ajuda para aprender a arte da espada
com um velho mestre samurai que vivia recluso, mas fora
rechaçado pelo mestre por ser o príncipe um jovem arrogante,
orgulhoso e fútil.
As relações entre o rei e seu rebento passaram de tensas à
indiferente.
O rei frustrado e desanimado em continuar sua luta, abateu-se.
O príncipe revoltado com o tratamento severo e agressivo e
depois indiferente do pai, sentia-se por sua vez, também
bastante frustrado e procurou esquecer de tudo, entregando-se
a seu cotidiano de diversões e sensação de poder e segurança
que sua posição lhe dava. Imaginava que seu pai haveria de
solucionar tudo de alguma forma, como sempre fizera.
Mas, como tudo segue sempre uma ordem de causas e efeitos, em
poucos anos o já previsto golpe, enfim encontrou ocasião
propicia, e aconteceu. O monarca do reino vizinho
arrebatou-lhes os exércitos facilmente, diante do
enfraquecimento do velho rei e quase sem resistência possível,
perderam o reino no que pareceu ao jovem príncipe, uma noite
de surpresas e horrores sem fim.
Seu pai foi morto na luta, mas ele conseguiu escapar com a
ajuda do capitão da guarda, que lhe deu cobertura na fuga.
Assim que se viu fora do castelo, correu desesperadamente sem
rumo, sempre em frente enquanto suas pernas agüentaram e ainda
pudesse ouvir os horripilantes sons dos brados, fogo e espadas
batendo-se.
Exausto, faminto e com medo, pois sabia que em breve
estariam a sua procura para que fosse também eliminado, o
jovem deixou-se cair ao solo junto a um riacho.
Sentindo-se
só e triste, chorou copiosamente, até que ouviu uma voz que
lhe soou familiar:
- Enxugue já esse rosto e levante-se guerreiro!
- És tu, velho Samurai? Reconheço-te a voz! - disse o rapaz
sentando-se e recompondo-se - Estás a caçoar de mim,
chamando-me de guerreiro? Bem sabes que perdi tudo. Meu pai,
meu reino, até mesmo meu orgulho. Não tenho mais nada, nada!
O idoso colocou-se diante do jovem e enquanto olhava
firmemente em seus olhos falou:
- Pois agora é que estás pronto para entrar no caminho do
verdadeiro guerreiro, pois estás despojado de todo o lastro!
- Perdi a vontade das guerras sábio Samurai! - disse o
rapaz desolado - Meu reino está destruído e meu pai já não
existe mais! Por quem hei de ser um guerreiro?
- Por ti! Por quem mais?- retrucou o Samurai em tom
vibrante - O caminho do verdadeiro guerreiro, tem início
através das batalhas internas! E essas, te digo meu rapaz, são
piores e muito mais violentas que as batalhas externas. Tu
mesmo bem sabes, podes ser teu pior e mais traiçoeiro inimigo!
Aquelas poucas palavras, vibraram novas esperanças no peito do
alquebrado jovem, que apesar de não conseguir alcançar ainda
toda a dimensão do que disse o velho, já percebia claramente
em si, alguns de seus próprios inimigos interiores, e também a
vontade de vencê-los. Isso o fez encher-se de novas forças.
Olhando pela primeira vez nos olhos do velho, percebeu toda a
força, conhecimento e ternura que havia naquele olhar e
tomando uma das mãos do Samurai entre as suas e inclinando-se
em respeitosa reverência perguntou:
- Nobre Samurai! Ficarás comigo e me guiarás? Estou só
nesse mundo!
- Não nesse momento! - respondeu o velho enquanto erguia o
rapaz - E essa, será sua primeira lição no caminho! O
guerreiro precisa estar só, para descobrir o que o sustenta
verdadeiramente, quando tudo a sua volta não é mais capaz de
sustentá-lo. Só assim, descobrirá sua base indestrutível!
Mas, para que tenhas um ponto de partida em sua busca,
ensinarei agora uma técnica: A primeira respiração Ráshuah - a
busca da base! Quero que a desenvolva exaustivamente até que
ela faça parte de ti.
E o mestre ensinou ao rapaz, a primeira respiração. A
respiração do elemento terra, para que o jovem descobrisse e
desenvolvesse suas bases.
Descubra e desenvolva a base. - disse o mestre
- Isto é
Ráshuah! Só então vá a minha procura! Não antes!
Feito isto, o velho Samurai subiu para sua reclusão no alto do
morro, deixando o jovem entregue a sua busca e ao treinamento.
Esse é um trecho de meu livro Conto dos Guerreiros Ráshuah
que reproduzi aqui, na intenção de levantar uma importante
questão:
Quais são suas bases? O que o sustenta em sua vida?
Quais os valores reais que podem sustentar sua existência e
realizações?
Pense nisso.