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  O QUE NOS SUSTENTA

 

trecho do livro de Vera Calvet - Conto dos Guerreiros Ráshuah

 

Existiu um dia em lugar e tempo distantes, uma próspera nação que se orgulhava de suas conquistas e feitos.

Seu monarca, heróico e bravo, como assim o intitulavam seus comandados, já caminhava para uma idade avançada, e em poucos anos não poderia mais guiar seus exércitos. Isso muito o preocupava, pois naquele tempo, o governante que não estivesse à frente de seus exércitos nos campos de batalha, não tinha o respeito de seu povo, e seus soldados debandavam, pois tinham na figura de seu governante a real motivação para as batalhas e conquistas e sem esse carisma e respeito, seria fácil um governante perder o poder e o trono.

A grande preocupação do monarca era ainda maior quando olhava seu filho e herdeiro. Único sobrevivente de sua prole e esposa, que haviam sucumbido a uma grande praga que quase devastou todo seu povo e também a família real, sofrida há poucos anos. A família real se resumia agora ao monarca, uma irmã mais nova e totalmente dependente de seus cuidados e àquele único filho.

 

Rapazote orgulhoso e voluntarioso, o jovem príncipe estava sempre envolvido em discussões e gritarias, quando se sentia contrariado em suas vontades. Esse até poderia ser o perfil de um bom comandante e guerreiro para liderar exércitos naquelas paragens, não fosse o fato de ser extremamente inábil com a espada e na luta corpo a corpo. Seu filho era um brigão que na verdade, não sabia lutar.

 

O monarca já havia tentado transformá-lo em um sucessor digno de todas as formas. Chamou vários guerreiros para ensiná-lo e degolou outros tantos por falharem.

O rei sabia que se em um curto espaço de tempo o rapaz não melhorasse, acabariam perdendo tudo o que haviam conquistado, pois rumores já corriam a respeito da impossibilidade do monarca ser substituído por um filho tão sem predicados e carisma.

 

Os soldados já davam mostras de não se sentirem mais tão motivados a lutar por um reinado que não poderia ser sustentado em futuro próximo, quando o jovem assumisse o trono.

Noticias a respeito da intenção de invasão de suas terras em um golpe arquitetado pelo monarca vizinho, se faziam ouvir pelos cantos e a tensão aumentava dia a dia.

 

Na tentativa de proteger o que restou de sua família e ao menos uma parte de seu patrimônio e de seu povo, o monarca arranjou o casamento de sua dependente irmã, com um importante nobre aliado, dando como dote grande parte de seu reino, na esperança de que ela tivesse uma prole forte o bastante para retomar mais tarde seu próprio reino, caso ele viesse a sucumbir num futuro que parecia cada vez mais próximo e certo.

 

Porém, um ano após o casamento, a noticia do nascimento de uma menina acabou com suas esperanças imediatas.

O rapaz tentou procurar ajuda para aprender a arte da espada com um velho mestre samurai que vivia recluso, mas fora rechaçado pelo mestre por ser o príncipe um jovem arrogante, orgulhoso e fútil.

As relações entre o rei e seu rebento passaram de tensas à indiferente.

 

O rei frustrado e desanimado em continuar sua luta, abateu-se. O príncipe revoltado com o tratamento severo e agressivo e depois indiferente do pai, sentia-se por sua vez, também bastante frustrado e procurou esquecer de tudo, entregando-se a seu cotidiano de diversões e sensação de poder e segurança que sua posição lhe dava. Imaginava que seu pai haveria de solucionar tudo de alguma forma, como sempre fizera.

 

Mas, como tudo segue sempre uma ordem de causas e efeitos, em poucos anos o já previsto golpe, enfim encontrou ocasião propicia, e aconteceu. O monarca do reino vizinho arrebatou-lhes os exércitos facilmente, diante do enfraquecimento do velho rei e quase sem resistência possível, perderam o reino no que pareceu ao jovem príncipe, uma noite de surpresas e horrores sem fim.

 

Seu pai foi morto na luta, mas ele conseguiu escapar com a ajuda do capitão da guarda, que lhe deu cobertura na fuga. Assim que se viu fora do castelo, correu desesperadamente sem rumo, sempre em frente enquanto suas pernas agüentaram e ainda pudesse ouvir os horripilantes sons dos brados, fogo e espadas batendo-se.

Exausto, faminto e com medo, pois sabia que em breve estariam a sua procura para que fosse também eliminado, o jovem deixou-se cair ao solo junto a um riacho.

 

Sentindo-se só e triste, chorou copiosamente, até que ouviu uma voz que lhe soou familiar:

- Enxugue já esse rosto e levante-se guerreiro!

- És tu, velho Samurai? Reconheço-te a voz! - disse o rapaz sentando-se e recompondo-se - Estás a caçoar de mim, chamando-me de guerreiro? Bem sabes que perdi tudo. Meu pai, meu reino, até mesmo meu orgulho. Não tenho mais nada, nada!

 

O idoso colocou-se diante do jovem e enquanto olhava firmemente em seus olhos falou:

- Pois agora é que estás pronto para entrar no caminho do verdadeiro guerreiro, pois estás despojado de todo o lastro!

- Perdi a vontade das guerras sábio Samurai! - disse o rapaz desolado - Meu reino está destruído e meu pai já não existe mais! Por quem hei de ser um guerreiro?

- Por ti! Por quem mais?- retrucou o Samurai em tom vibrante - O caminho do verdadeiro guerreiro, tem início através das batalhas internas! E essas, te digo meu rapaz, são piores e muito mais violentas que as batalhas externas. Tu mesmo bem sabes, podes ser teu pior e mais traiçoeiro inimigo!

 

Aquelas poucas palavras, vibraram novas esperanças no peito do alquebrado jovem, que apesar de não conseguir alcançar ainda toda a dimensão do que disse o velho, já percebia claramente em si, alguns de seus próprios inimigos interiores, e também a vontade de vencê-los. Isso o fez encher-se de novas forças. Olhando pela primeira vez nos olhos do velho, percebeu toda a força, conhecimento e ternura que havia naquele olhar e tomando uma das mãos do Samurai entre as suas e inclinando-se em respeitosa reverência perguntou:

- Nobre Samurai! Ficarás comigo e me guiarás? Estou só nesse mundo!

- Não nesse momento! - respondeu o velho enquanto erguia o rapaz - E essa, será sua primeira lição no caminho! O guerreiro precisa estar só, para descobrir o que o sustenta verdadeiramente, quando tudo a sua volta não é mais capaz de sustentá-lo. Só assim, descobrirá sua base indestrutível!

 

Mas, para que tenhas um ponto de partida em sua busca, ensinarei agora uma técnica: A primeira respiração Ráshuah - a busca da base! Quero que a desenvolva exaustivamente até que ela faça parte de ti.

E o mestre ensinou ao rapaz, a primeira respiração. A respiração do elemento terra, para que o jovem descobrisse e desenvolvesse suas bases.

Descubra e desenvolva a base. - disse o mestre - Isto é Ráshuah!  Só então vá a minha procura! Não antes!

Feito isto, o velho Samurai subiu para sua reclusão no alto do morro, deixando o jovem entregue a sua busca e ao treinamento.

 

Esse é um trecho de meu livro Conto dos Guerreiros Ráshuah que reproduzi aqui, na intenção de levantar uma importante questão:

Quais são suas bases? O que o sustenta em sua vida? Quais os valores reais que podem sustentar sua existência e realizações?

Pense nisso.

Com muito carinho,

 

Vera Calvet

 

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